Um dos mais sublimes mistérios da nossa fé cristã e católica é a presença viva e real, do corpo e sangue, alma e divindade, de Nosso Senhor Jesus Cristo, no altar de cada celebração eucarística.[1] Essa augusta e sacramental presença, em nossas celebrações eucarísticas, seja numa majestosa basílica ou catedral, como numa modesta capela, residência ou área aberta, território urbano ou rural, desde que se ofereça o mínimo de condições e dignidade para a presente celebração[2], é a certeza de que o Senhor está presente “para” nós, “entre” nós, e quando O comungamos está “em” nós! Dentre várias passagens bíblicas que fundamentam nossa fé eucarística, recordemos o Evangelho de São João, capítulo 6. Após saciar a fome biológica da multidão, Jesus se apresenta como verdadeiro alimento e pão de vida eterna, quem d’Ele se alimenta, come a Sua “carne” e bebe o Seu “sangue”, n’Ele permanece, viverá eternamente, ressuscitará (Cf. Jo 6, 47-58). Muitos não O compreendem, não O aceitam, e vão embora. Falando sobre o mencionado Evangelho citado acima (Jo 6), recordo-me de um frade capuchinho (Frei Adalto Antônio), que dizia: “quem não acredita na presença real de Cristo na Eucaristia, pode arrancar o presente texto de sua Bíblia”. Eis uma fala forte, mas que tem o seu significado!
Outra comprovação bíblica sobre Jesus vivo na Eucaristia, são os relatos da última Ceia nos Evangelhos sinóticos (Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 14-20), em que Jesus antes de sua paixão e morte de cruz, gloriosa ressurreição, e posteriormente retorno (ascensão) para o Pai, não abandona os seus “discípulos e amigos”, Ele se dá como verdadeiro corpo e sangue no pão e vinho consagrados (eucaristizados), mistério sacramental instituído por Ele mesmo, e que será “atualizado e presentificado” em cada eucaristia até a Sua vinda gloriosa. Isto se dá por meio de Suas palavras e ação do Espírito Santo, em que os apóstolos e seus sucessores, ou seja, a igreja reunida como assembleia litúrgica – presbíteros e fiéis, acolhe e realiza com fé e devoção o memorial: “Fazei isto em memória de Mim”! (Lc 22,19; 1ª Cor 11, 24-25). O Pão dos Anjos torna-se o Pão dos homens, como se canta num belo hino eucarístico: “Panis angelicus fit Panis hominum“, para as labutas diárias, e “viaticum” (alimento espiritual do viajante) para a páscoa definitiva, para a Jerusalém Celeste. São Carlo Acutis tinha a convicção: “A Eucaristia é a minha ‘autoestrada’ para o céu”! Na Cidade Santa e Eterna, sem mais a necessidade dos “véus do sacramento”, se contemplará o Senhor face a face, em Sua plenitude, verdade e amor (ágape). Na grandeza da presença real e permanente de Jesus na Eucaristia, o temos também para ser adorado, amado e ser oferecido aos enfermos, em nossos sacrários ou tabernáculos. Como nos nossos altares, eles, nos remetem às bonitas imagens e símbolos bíblicos, como o Santo dos Santos, a Tenda ou o Santuário em que o Senhor veio morar (habitar) entre nós, e também o Leito Nupcial do Esposo (Cristo) para com sua “amada esposa” (a Igreja e nossas almas), que suplicam “Maranatha”: Vem, Senhor Jesus![3] (Cf. Ef. 5, 25; Ap 19, 7-9; Ap 22, 20; Hb 10,19-22; 1ª Cor 16, 22).
A Igreja em seu Magistério, Tradição viva, e vida dos Santos, sempre reverenciou e celebrou a presença viva e sacramental do seu Senhor na eucaristia, como nas grandes solenidades e festas, seja um Ano Jubilar ou Jubileu, durante um Concílio, Sínodo, grandes Assembleias eclesiais, Conclave e outras expectativas da fé; mas também durante as provações humanas (ex. violências e guerras) e catástrofes naturais. No contexto de profunda alegria e ação de graças, temos o Jubileu de Diamante (60 anos) de nossa amada diocese de Itapeva, a ser celebrado solenemente no ano de 2028. Iniciamos neste ano de 2026, na Solenidade de “Corpus Christi”, sob a intercessão de Nossa Senhora – “Mãe Eucarística, da Igreja e de Itapeva” -, de Santa Ana, nossa padroeira diocesana e da nossa igreja catedral, dos Santos e Santas patronos de nossas paróquias e cidades que compõem nosso território diocesano, e de todos os Bem Aventurados da Igreja universal, com e sob nosso bispo diocesano Dom Eduardo Malaspina, cada pároco, religiosos consagrados e demais responsáveis, a “preparação memorial” e vivência Jubilar. A Eucaristia que é “sacramentum caritatis”[4], que dá vida e edifica a igreja (“ecclesia de eucharistia”)[5], é sacramento de (“redemptionis sacramentum”)[6], se transborda em sacramento da alegria (“sacramentum gaudii”) e de tantos outros bens espirituais[7], está no centro de nosso caminho jubilar, revivendo a experiência pascal, kerigmática e catecumenal dos Discípulos de Emaús. O lema: “Eles reconheceram Jesus ao partir o pão” (Lc 24,31), nos “provoca” a sermos peregrinos em nossa realidade concreta, humana e religiosa, dores e alegrias, a reconhecermos o Senhor ressuscitado que nos fala, aquece o coração, parte o pão (Seu corpo) e nos envia à Sua “carne viva” em cada ser humano, sobretudo aos mais fragilizados e feridos em diversas situações[8]. Este ano de 2026 em nível paroquial, em 2027 nível forânico (foranias), e em 2028 – o Jubileu propriamente dito – em nível diocesano. É uma corrente de graças, de envolvimento progressivo e abrangente para todos os filhos e “pedras vivas” de nossa diocese, na riqueza dos vários dons, carismas e ministérios a nós oferecidos pelo Espírito Santo, para o bem, a santificação e salvação de cada um e de todos como “família diocesana”, congregada na fé, esperança e caridade, que supera todas as limitações, diferenças e falhas de nossa condição humana. Assim, nesse “kairós eucarístico”, demais pessoas não propriamente católicas ou que estão afastadas (desigrejados), mas que são de boa vontade e buscam um sentido seguro para suas vidas, poderão ser atraídas para a grande família dos amados filhos e filhas de Deus, e “corpo místico” de Cristo, sob um só Pastor e formando um único rebanho.
Criada em 1968, sob o pontificado de São Paulo VI, a quem também invocamos sua intercessão pelo nosso jubileu, recordemos o título da Bula de criação de nossa Diocese: “Quantum Spei” (Quanta Esperança!), de 02 de março de 1968. Parafraseando a famosa analogia do poeta francês Charles Péguy[9], que descreve as três virtudes teologais como “três irmãs” que caminham juntas. A esperança é a “irmã menor” (menininha) no meio (no centro) das outras duas “irmãs maiores” (a fé: esposa fiel, a caridade: mãe acolhedora), em sua inocência, potencial e dom, a esperança é quem segura nas mãos das duas “irmãs maiores”, as unem e as conduzem para o amanhã (futuro)! Essa esperança que transborda do Coração de Cristo, nos motive em nosso jubileu diocesano, e no reavivamento do nosso amor, reverência e doação a Jesus vivo na eucaristia, na igreja, em cada irmão. Com os “horizontes eucaristizados”, nosso testemunho para uma robusta paz interior e social, para as urgências de uma “ecologia integral”, cuidado para com a “casa comum”, e o testemunho moral e ético no contexto digital e das novas tecnologias[10]. Nada é alheio a Cristo vivo na Eucaristia, que irradia seu amor regenerador em mim, no próximo e na “devida proporção” no cosmo, em toda criação, para um “novo céu e uma nova terra” (Cf. 2ª Pd 3,13; Ap 21, 1-5): um “novo e perene Altar”, em que todos nós somos convidados a ir e permanecer!
Pe. Roberto Xavier Fernandes, O. Cist.
[1] Cf. Catecismo da Igreja Católica nº 1322-1323, 1345-1355.
[2] Cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano, nº 16-26, 288-318.
[3] Cf. Catecismo da Igreja Católica, nº 1402-1405.
[4] Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Sacramentum Caritatis”, Papa Bento XVI, 22 de fevereiro de 2007.
[5] Carta Encíclica “Ecclesia de Eucaristia”, Papa João Paulo II, 17 de abril de 2003.
[6]Cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos: Instrução “Redemptionis Sacramentum”, sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia, 25 de março de 2004.
[7]Cf. Carta Apostólica “Desiderio Desideravi”, Papa Francisco, 29 de junho de 2022.
[8] Cf. Exortação Apostólica do Papa Francisco “Evangelii Gaudium”, nº270.
[9] Cf. O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Ed. Companhia Ilimitada, 2026.
[10] Carta Encíclica “Magnifica Humanitas”, Papa Leão XIV, nº 22, 28, 40-44.